domingo, 18 de maio de 2014

Cardiopatia Reumática em Conto de Guimarães Rosa

Uma apetitosa aula de insuficiência cardíaca congestiva conseguinte a cardiopatia adquirida da febre reumática é encontrada no conto O Duelo (Sagarana), de Guimarães Rosa.



A cardiopatia reumática crônica (CRC) é uma complicação da faringoamigdalite causada pelo estreptococo beta-hemolítico do grupo A e decorre de resposta imune tardia a esta infecção em populações geneticamente predispostas. A febre reumática afeta especialmente crianças e adultos jovens. O acometimento cardíaco é caracterizado pela pancardite, entretanto são as lesões valvares as responsáveis pela síndrome e prognóstico.
[...] porque o Cassiano Gomes não dera baixa da polícia à toa, e sim excluído pela junta médica; e, apesar do seu garboso aspecto, não lhe prestava para muito o coração.

Não é à toa, porém, que um cavaleiro, excluído das armas por causa de más válvulas e maus orifícios cardíacos, se extenua em raids tão penosos, na trilha da guerra sem perdão.


O personagem roseano Cassiano Gomes, dispensado do exército devido às "más válvulas e maus orifícios cardíacos", teria o coração acometido pela cardiopatia reumática, evoluindo mais tarde para um quadro de insuficiência cardíaca congestiva:
Pois foi lá que Cassiano Gomes teve o seu desarranjo, com a insuficiência mitral em franca descompensação. Desceram-no do cavalo e deram-lhe hospitalidade.


A lesão mitral descrita por Rosa corrobora com o diagnóstico de febre reumática, sendo esta valva a mais frequentemente acometida na doença.

Cassiano, perseguindo por vigança Turíbio Todo durante longas cavalgadas, manifesta o edema em membros inferiores e a dispneia aos esforços característica da insuficiência cardíaca congestiva:
Cassiano sentiu que, agora, ao menor esforço, nele montava a canseira. E, do meio dia para a tarde, não podia mais ficar calçado, porque os tornozelos começavam a inchar.
Foi ao boticário e pediu franqueza. – Franqueza mesmo, mesmo, seu Cassiano? O senhor... Bem, se isso incha de tarde e não incha nos olhos, mas só nas pernas, é mau sinal... - Pra morrer logo? - Assim sem ser ligeiro... Lá pra o São-João do ano que vem...Mas já indo empiorando um pouco, aí por volta do Natal.

Mas não pode dar mais de três passos: cambaleou e teve de sentar-se à porta do cafua; e foi ali sentado que passou a passar todo o tempo, dia pós dia, com o peito encostado nos joelhos e, por via dos hábitos, com a winchester transversalmente no colo e a parabellum ao alcance da mão.


A posição “tronco elevado” assumida pelo personagem, evitando a horizontalização do corpo, aliviaria a dispneia pela melhora da capacidade respiratória. O edema, devido a gravidade, fica mais pronunciado nos pés, acometendo menos a face.
E ele foi para um Jirau, com a barriga de hidrópico e a respiração difícil de um cachorro veadeiro que volta da caça. [...] Em volta dos lábios laivos azulados, e a doença lhe esgarçava o coração.


A cianose (“lábios lavios azulados”, a dispneia em repouso (“respiração difícil de um cachorro veadeiro”) bem como a ascite ("barriga de um hidrópico") faz parte do quadro terminal da insuficiência cardíaca.

A poética descrição clínica da doença exala a essência médica no escritor Guimarães Rosa que, mesmo após abandonar o exercício da medicina, conserva a sensibilidade diagnóstica tão viva quanto suas personagens.

5 comentários:

  1. Como sempre, espetacular!!!
    Abraços

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  2. Adorei o seu blog! =)
    Sou estudante de medicina e há um bom tempo procurava um site assim. Parabéns.

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  3. Parabéns pelo belo trabalho! Gosto muito da seus posts, Renata.

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